Não confunda um pouquinho de macarrão com um porrão de macaquinho

Texto: Alê Moraes
Fotos por: Gabi Ziliotti
 

Se você começou a ler esse texto achando que era uma brincadeira ou piada qualquer desculpe decepcionar: não é caso. Aliás, se você é do tipo que se choca fácil, tem pavor a assuntos que provocam reflexões e discussões sérias a respeito da vida e das questões inerentes a ela, aviso: leia isso e comece logo a sair desse cantinho da alienação. Mas se você é desses que gosta de uma boa troca de ideias, aviso também: entre e fique a vontade. O assunto do qual vai se tratar aqui é um desses que deveria vir com um aviso – “favor colocar os cinto de segurança”. Mas as informações de segurança de nada adiantariam para prevenir as turbulências da vida mesmo, então que venham as tempestades.

Vamos tentar aqui tratar de “vadias”, liberdade, pudor, conservadorismo e alguns afins. Já que, dois assuntos vêm sendo confundidos depois que alguns episódios em muito prejudicaram sua compreensão, clareza e objetividade: a Marcha das Vadias e a performance do Coletivo Coyote que aconteceram durante a vinda do Papa Francisco ao Brasil.

Comecemos do começo, pois, entendedores entenderão. A Slut Walk ou Marcha das Vadias surgiu em 2011 no Canadá quando uma mulher vítima de estupro ao procurar autoridades competentes escutou de um policial que: fora ela a principal causadora de seu infortúnio. Isso porque – ela, a vítima – vestira-se de modo inadequado incitando o homem que a estuprara. Este acontecimento no mínimo surreal, inadequado, preconceituoso, machista e anormal gerou uma manifestação feminista a favor da liberdade de estar no mundo da forma como bem se entende, sem sofrer por isso qualquer ato de violência. Justo, incrível, lindo e maravilhoso!

Nós aqui, os tupiniquins, já estamos aprendendo que a rua é o nosso lugar e que nela é que devemos estar para reivindicar nossos direitos e buscar a transformação que desejamos no mundo. Como bem disse Luther King, “temos a obrigação civil de desobedecer leis injustas.” Porém, a Marcha, pelo menos em sua existência tupiniquim ainda não alcançou os ideais políticos que uma luta contra a dominação masculina e a favor da igualdade de gênero exige.

Ainda se fala muito sobre os problemas da mulher de classe média, média-alta e rica. Ignorando a realidade da população que sofre todos os dias com o regime de hierarquia e dominação patriarcal. Digo população porque aqui não se incluem só as mulheres, mas todos tipos de indivíduos que não se encaixam nos padrões conservadores de tradição moralizante. Isto é, a Marcha ainda não dialoga com gente pobre, com a massa trabalhadora. O relativo silêncio a respeito da importância das transformações sociais incomoda muito: o capitalismo e o patriarcalismo são dois sistemas que se retroalimentam e sobrevivem juntos.

Agora, falemos então de outro tema delicado: a Performance do Coletivo Coyote. Para quem não faz ideia do que estou falando acessar: https://www.youtube.com/watch?v=1peVY3moOyI&bpctr=1378925035.

É importantíssimo salientar que a performance artística deste grupo aconteceu sem autorização ou mesmo aviso prévio a organização da Marcha das Vadias. E, antes que você diga que a arte pode tudo ou mesmo que a arte não pode nada nos dias de hoje, convido a pensarmos juntos!

Pois bem, me manifesto aqui em defesa da liberdade de expressão. Aquela que nos foi tirada, proibida e impedida durante tanto tempo do nosso percurso histórico autoritário e antidemocrático. Falo aqui em nome de uma das mais significativas expressões humanas, uma forma de linguagem que em muitas circunstâncias é capaz de comunicar aquilo que nossos traumas, preconceitos e consciência não nos permitem. A arte muitas vezes é aquilo que permite que a nossa existência “humana demasiadamente humana” como disse Nietzsche, se manifeste e se liberte no mundo de proibições no qual vivemos.

Nesse sentindo, a arte contemporânea se mobilizou em torno de um objetivo bastante significativo: retirar o espectador de seu lugar de conforto. Chocá-lo, provocar a inconstância, a intolerância, provar que os sentidos e significados são pré-construídos e, muitas vezes aceitos como naturais pela maioria dos indivíduos. A arte contemporânea quer retirar o espectador do seu lugar de contemplador e fazer com que sinta na carne, na alma, na vida a dor das tragédias e das mazelas humanas. Os artistas parecem querer nos despertar de nosso sono profundo nos beliscando sem compaixão, sem pudor, sem moralismos.

Alguns podem falar em intolerância religiosa, em falta de respeito, em choque, em fim do mundo. Mas porque estes que falam isso muitas vezes não se pronunciam mais a respeito da miséria humana? Não se chocam mais com a desestruturação social? Porque as inúmeras crianças que são abusadas de todas as formas possíveis diariamente no nosso país, por exemplo, já não causam mais a mesma comoção que uma performance artística? Porque nos mobilizamos mais em proibir mulheres grávidas de seus estupradores de abortar, do que com a precariedade na qual vivem milhões de crianças brasileiras, sem moradia, sem alimentação, saneamento básico ou dignidade?

” (…) quando se fala de sociedade é muito mais saudável falar em limites éticos, porque religião ou a falta dela é de cunho pessoal.”

A questão é: por que quebrar uma estátua de gesso é mais chocante e gera mais revolta do que as mazelas de milhares e milhares de brasileiros pobres e explorados? Já sei, possivelmente porque, assim como disse a respeito da Marcha esta Performance também não dialoga com os trabalhadores e trabalhadoras deste país. Talvez, porque “quebra” com os limites que fomos ensinados a aceitar desde nossos primeiros passos no mundo, porque força muito nossos limites de moralidade. No entanto, quando se fala de sociedade é muito mais saudável falar em limites éticos, porque religião ou a falta dela é de cunho pessoal.

Mas daí eu pergunto: devemos nos calar? Devemos continuar sacralizando a influência decisiva e, muitas vezes tendenciosa da religião em nossas vidas enquanto coletivo? Ainda mais se nossas leis são laicas. Talvez quebrar a imagem ou submeter os símbolos religiosos a situações constrangedoras, inóspitas e inapropriadas possa significar uma vontade de romper com esses limites hierárquicos e moralizantes, anacrônicos.

Deixo aqui mais perguntas do que respostas, com o desejo de intrigar muito mais do que responder. Mas lembro, a arte e o artista muitas vezes na história conseguiram vislumbrar aquilo que a sociedade ainda não conseguia, e muitas vezes abriu precedentes para transformações e debates necessários e saudáveis.

Lembrando apenas que quando Manet pintou Olympia em 1863 foi fortemente criticado pelos setores mais conservadores da sociedade, defensores da moral e dos bons costumes. A Academia recusara aquele quadro que retratara uma prostituta comum e que ainda por cima encarava o espectador com o olhar desafiador. Aquela prostituta incomodamente tradicional nos bares e caberes franceses frequentados por quase todos os homens de família mais tradicionais da França do século XIX era a prova cabal das incoerências e hipocrisias da sociedade burguesa. Hoje é uma das obras mais valiosas da História da Arte, pois abriu precedentes para a arte moderna.

Fico com uma música que veio na minha mente na voz da Elis, sempre ela: “Você não sente e não vê/Mas eu não posso deixar de dizer meu amigo/ Que uma nova mudança em breve vai acontecer/ O que há algum tempo era novo, jovem/ Hoje é antigo/ E precisamos todos rejuvenescer.”

Concorda? Não concorda? As duas coisas? Veja outro ponto de vista.

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